Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

riscos_e_rabiscos

.

.

Cenas de Autocarro #4

Depois de ter saído de casa mais cedo e me ter saído o tiro pela culantra pois fartei-me de esperar pelo meu autocarro, lá entrei num e me amusentei no primeiro banco livre que encontrei.

 

Instalei-me num daqueles bancos em que vamos de cotas mas que a mim não me causa impressão alguma. Queria era sentar-me porque ia até à última paragem, doiam-me os pés de estar em pé há tanto tempo à espera de autocarro e tinha cá um peso na minha mala para variar!

Três ou quatro paragens abaixo entram duas velhota: uma, coloca as suas coisas no espaço para bagagens que estava mesmo atrás da minha cabeça e a outra que se agarra como se não houvesse amanhã ao varão mesmo ao lado da minha cabeça.

 

Passado um bocadinho a velhota do varão lança para o ar "esta gente não tem cuidado nenhum... está uma a dar-me com o saco na nágeda". O autocarro pára numa paragem e o pessoal mexe-se um bocadinho e é nesta altura que a velhota aproveita para dizer à moça que estava ao lado " a senhora não pode estar a bater-me na nágeda assim com o seu saco...". A moça, incrédula, olha para a velhota e responde-lhe " eu reparei que a senhora estava incomodada com alguma coisa mas não tinha percebido o que era" e nisto muda a mala e o saco que trazia para o outro braço. E só aqui entre nós que ningu´m nos ouve, não era a moça de certeza absoluta que ia a tocar na nágeda da velhota... mas pronto!

 

O velhote que ia sentado à minha frente, meio divertido com a estupidez da situação tal como eu, profere um reparo muito interessante: " a senhora (a velhota) está a queixar-se do saco da moça mas não está a ver que tem a mala em cima de si (eu)". E efectivamente assim era. Mas a velhota fingiu não perceber. E eu nem quis saber porque estava mais para lá do que para cá e, na realidade nem me estava a incomodar por aí e além...

 

Quase a chegar à sua paragem, o velhote levanta-se, deixando o seu banco livre. Assim que viu o lugarzinho, a velhota correu para se sentar soltando um "deixa-me cá sentar... não gosto nada de barafundas...!" ao que eu respondi mentalmente "então devias ter ficado em casa porque agora é hora de ponta e não passa um autocarro há 3 séculos".

 

E a coisa serenou. Pensei eu. Íamos nós já mais à frente, quando reparo que a velhota se agarra aos lados, levanta a "nalgueira", faz força e oiço um som tipo metralhadora, de encontro à cadeira. "Não acredito nisto... será que ela se...?" e enquanto eu pesno isto ela faz novamente o gesto, e o cheiro começa a invadir o ar. Eu nem queria acreditar no que estava a ver, ouvir e a sentir! Meti o meu casaco no nariz para filtrar o ar daquele fedro horrendo. E a velhota continuou a olhar para o caminho, como se não tivesse sido nada com ela. Que lata!

 

Podia ter saído sem querer, é normal e acontece, agora levantar a nalga e fazer força para sair, ainda não tinha visto! Coitado de quem estava atrás e ao lado! Depois tocou na campainha e saiu na paragem de destino.

 

À vinda para cá apanhei o revoltado-dos-bancos-reservados. Há gente com cada panca... e o pior (ou melhor) é que andam de autocarro. E eu apanho-os todos!

O tal fulano revoltado-dos-bancos-reservados, tinha um problema qualquer na perna e uma muleta. Assim que olhou para os bancos reservados e vu que quem lá estavam eram mulheres "maduras" e não velhotes caquéticos ou mães com crianças ou deficientes, desatou a proferir impropérios e a dizer que era um "revoltado com isto" (palavras dele).

Desatou a gritar com quem estava nos bancos e a dizer que não deviam estar ali sentadas porque aqueles lugares não eram para elas, e vá de soltar mas quinhentas asneiras.

 

Uma senhora deu-lhe o lugar e ele sentou-se por um minuto. Depois levantou-se a dizer asneirada e a dizer que quem devia ali estar era uma senhora que estava em pé com duas crianças. Mas a tal senhora ignorou-o. Ela ficou ali porque quis, afinal saiu duas paragens a seguir. Deu-lhe mais jeito assim.

 

A seguir voltou a entrar mais gente que se sentou naqueles lugares. Beeeemmm, o homem ficou possesso, possuído, revoltado e sei lá mais o quê.

Em suma: o que o revoltado-dos-bancos-reservados queria era que os bancos estivessem sempre desocupados e que só se sentassem lá pessoas com crianças ao colo e deficientes. Velhotas "só porque têm uma dorzinha" (palavras dele), não. Finalmente saiu e a coisa acalmou mas ao passar ao lado do autocarro, ainda deu uma "muletada" junto à janela dos bancos reservados,

 

É com cada cromo que me aparece à frente! Até parecem escolhidos a dedo...